O QUE É DOR E POR QUE ELA NEM SEMPRE INDICA LESÃO?
Uma perspectiva contemporânea sobre a dor e a reabilitação física -
Você já sentiu uma dor que persistia mesmo depois de todos os exames darem normal? Já ouviu que seus exames estavam normais, mas a dor continuava lá, limitando seus movimentos, seu sono, sua vida?
Essa experiência é mais comum do que parece. E revela algo fundamental: a dor não é um termômetro fiel do que acontece nos tecidos do corpo.
A relação entre lesão e dor é muito menos direta do que a intuição sugere. Duas pessoas com a mesma lesão no exame de imagem podem ter experiências completamente diferentes: uma sente dor intensa, a outra sente pouco ou nada. E uma pessoa pode sentir dor intensa mesmo quando não há dano tecidual identificável ou proporcional à intensidade da dor.
Para entender como isso é possível, precisamos compreender o que a ciência contemporânea descobriu sobre a dor.

Imagem: representação abstrata da experiência dolorosa e suas repercussões.
1. A definição atual de dor
Em 2020, a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) publicou a primeira revisão de sua definição oficial em 40 anos. A definição atual descreve a dor como uma experiência sensorial e emocional desagradável, associada a, ou semelhante à associada a, dano tissular real ou potencial.
Dois aspectos são centrais. O primeiro: dor é sempre experiência, subjetiva, pessoal, vivida de maneira única. O segundo: a dor pode ser idêntica à causada por uma lesão mesmo quando não há lesão identificável. O sistema nervoso pode produzir uma experiência de dor mesmo quando não há dano tecidual identificável ou proporcional à intensidade da dor.
A definição revisada, traduzida e divulgada no Brasil pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED), acrescenta que a dor é influenciada por fatores biológicos, psicológicos e sociais. É o que chamamos de modelo biopsicossocial, um dos pilares da fisioterapia contemporânea.
2. O sistema nervoso como intérprete do corpo
Se a dor não é simplesmente um sinal de alerta vindo dos tecidos, o que ela é? O neurocientista Ronald Melzack propôs, no início dos anos 2000, o conceito de neuromatriz. Segundo ele, o sistema nervoso dispõe de uma rede neural complexa, geneticamente determinada mas moldada pela experiência, que produz a experiência de dor a partir de múltiplas fontes de informação.
Isso significa que a dor emerge da atividade integrada do sistema nervoso e da interpretação de informações corporais, emocionais, cognitivas e contextuais, não de um reflexo passivo de estímulos periféricos. O sistema nervoso integra informações sensoriais (o que os tecidos enviam), emocionais (como você se sente), cognitivas (o que você pensa sobre a dor) e contextuais (o ambiente em que você está) para gerar ou não gerar dor.
Essa perspectiva ampliou a compreensão de fenômenos que modelos exclusivamente estruturais não conseguiam explicar de forma suficiente. Como um amputado pode sentir dor em um membro que não existe mais? Como uma pessoa pode sentir dor lombar intensa sem que os achados estruturais expliquem completamente seus sintomas?
Como o medo, o estresse e as expectativas negativas sobre a recuperação podem intensificar ou perpetuar a dor? A resposta é que a neuromatriz pode produzir dor mesmo na ausência de estímulos nocivos periféricos, moldada pela história de vida, pelas experiências passadas e pelo estado emocional de cada um.
3. A dor como sistema de proteção, não de detecção
Os fisioterapeutas e pesquisadores Lorimer Moseley e David Butler propuseram uma reformulação ainda mais radical: a dor pode ser compreendida como uma resposta protetora produzida pelo sistema nervoso quando o organismo interpreta que existe ameaça suficiente para justificar proteção.
Pense na dor como um sistema de alarme. Um alarme pode disparar mesmo quando não há incêndio, se houver fumaça de um torrador, se o sensor estiver muito sensível, se houver um defeito no sistema. O alarme não está errado. Ele está respondendo às informações que recebeu. O problema é que o sistema está calibrado para proteger, mesmo que o perigo real seja menor do que ele supõe.
Às vezes, esse sistema continua protegendo uma ameaça que já passou. Essa é uma das formas de compreender por que algumas dores persistem mesmo após a recuperação dos tecidos. Em algumas condições de dor persistente, algo semelhante acontece. O sistema de proteção pode tornar-se mais sensível.
O sistema nervoso passa a interpretar estímulos que normalmente não representariam perigo tecidual significativo como ameaças, e produz dor para proteger o corpo, mesmo que não haja lesão ou perigo real. Moseley e Butler desenvolveram a Educação em Neurociência da Dor, uma abordagem que começa pela reconceitualização da dor pelo paciente. Compreender que a dor não equivale a dano tecidual reduz a ameaça percebida. Para muitas pessoas, isso diminui o medo do movimento e favorece a retomada gradual das atividades.
4. O que isso muda no tratamento
Se a dor não é apenas um problema mecânico ou estrutural, o tratamento também não pode se limitar a consertar o que se vê no exame. A abordagem precisa considerar fatores biológicos (tecidos, movimento, condicionamento, sono, inflamação), psicológicos (crenças sobre a dor, medo do movimento, catastrofização, autoeficácia) e sociais (contexto de trabalho, suporte familiar, acesso ao tratamento, crenças culturais).
A série sobre dor lombar publicada pela revista The Lancet em 2018, juntamente com pesquisas posteriores, destaca que a gravidade da dor e da incapacidade frequentemente não se correlaciona com achados de imagem. Fatores psicológicos e sociais são determinantes críticos da cronificação.
O tratamento de primeira linha inclui educação do paciente, incentivo à manutenção da atividade física e exercícios individualizados. Não repouso prolongado. Não intervenções desnecessárias. Com a entrada em vigor da CID-11 em 2022, a Organização Mundial da Saúde deu mais um passo ao reconhecer a dor crônica primária como uma condição de saúde em si mesma, com classificação própria.
5. Uma nota de honestidade científica
A Educação em Neurociência da Dor não é uma solução mágica. Estudos recentes, incluindo um artigo de 2026 do próprio Moseley em coautoria, mostram que algumas pessoas com dor persistente não relatam melhora significativa com essa abordagem isolada. Isso não a invalida, mas revela que ela precisa ser adaptada a cada paciente, combinada com outras estratégias e aplicada com sensibilidade clínica.
6. Conclusão
A dor não é um termômetro de lesão. Ela é uma experiência complexa, resultante da interação entre o sistema nervoso, o corpo, a história da pessoa e o contexto em que ela vive.
Atenção: Isso não significa que toda dor deva ser relativizada. Dores recentes e intensas, associadas a trauma, perda de força, alterações de sensibilidade ou outros sinais clínicos, precisam de avaliação adequada. Compreender a complexidade da dor não substitui a investigação de possíveis causas.
O exame mostra como estão os tecidos. A dor mostra como aquela experiência está sendo vivida. Compreender isso não elimina a dor, mas abre caminhos para abordá-la de maneira mais inteligente, mais humana e mais eficaz. Em vez de buscar apenas o que está quebrado para consertar, a fisioterapia baseada na ciência contemporânea da dor pergunta: o que está fazendo o sistema de proteção do seu corpo permanecer ativado?
Reabilitar não é convencer alguém de que sua dor não é real. É compreender por que ela persiste, reconhecer os fatores que a influenciam e reconstruir, com segurança, a confiança no movimento e na vida cotidiana. O objetivo não é apenas reduzir a dor, mas recuperar função, autonomia e confiança no movimento. A boa reabilitação não começa quando a dor desaparece. Ela começa quando entendemos melhor o que ela significa.
Se você tem sentido dores que persistem, que os exames não explicam completamente ou que limitam sua rotina, uma avaliação fisioterapêutica individualizada pode ajudar a compreender os fatores envolvidos e definir caminhos seguros para a recuperação. Estou na Livance Vila Madalena com horários disponíveis para avaliação. Agendamento pelo WhatsApp.
Referências
1. Raja SN, Carr DB, Cohen M, et al. The revised IASP definition of pain: concepts, challenges, and compromises. Pain. 2020;161(9):1976-1982.
2. Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED). Definição revisada de dor (tradução oficial). Boletim SBED. 2020;(74).
3. Melzack R. Pain and the Neuromatrix in the Brain. Journal of Dental Education. 2001;65(12):1378-1382.
4. Moseley GL, Butler DS. Fifteen Years of Explaining Pain: The Past, Present, and Future. Journal of Pain. 2015;16(9):807-813.
5. Foster NE, Anema JR, Cherkin D, et al. Prevention and treatment of low back pain: evidence, challenges, and promising directions. The Lancet. 2018;391(10137):2368-2383.
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7. Leake HB, Wallwork SB, Moseley GL. Limited perceived value of pain science education among people with persistent pain reporting no improvement: a mixed-methods secondary analysis. Journal of Pain. 2026.