Reflexões sobre adesão, funcionalidade e promoção da saúde a partir de um congresso de treinamento funcional.

 


Todos os anos, milhares de pessoas iniciam programas de exercício físico com a intenção de cuidar melhor da saúde. Muitas delas, porém, abandonam essa prática poucos meses depois.

Recentemente, ao participar de um congresso de treinamento funcional, percebi que essa questão aparecia, de diferentes formas, em diversas palestras. Temas como avaliação funcional, treinamento intervalado de alta intensidade (HIIT), integração das capacidades físicas, dor lombar e exercício terapêutico pareciam convergir para uma mesma preocupação: como ajudar as pessoas a permanecerem em movimento ao longo do tempo?

Essa reflexão não ficou restrita ao congresso. Ela também se faz presente no cotidiano, tanto na prática clínica quanto na experiência de muitas pessoas que desejam cuidar da saúde por meio do exercício físico, mas encontram dificuldades para transformar essa intenção em um hábito duradouro.

Afinal, se os benefícios do exercício físico para a saúde são amplamente conhecidos, por que tantas pessoas desistem?

A resposta dificilmente pode ser atribuída apenas à falta de disciplina ou motivação.

A adesão ao exercício é um fenômeno complexo, influenciado por fatores físicos, emocionais, sociais, ambientais e também pela forma como o treinamento é planejado e conduzido.

As demandas do trabalho, os compromissos familiares, a gestão do tempo, os períodos de maior estresse e até a dificuldade de encontrar prazer ou significado na prática podem interferir diretamente na capacidade de manter uma rotina de exercícios.

Uma reflexão interessante apresentada durante o congresso foi a importância dos primeiros meses de prática.

Esse período parece ser decisivo para a consolidação de hábitos relacionados ao movimento. Algumas das discussões sugeriram que programas com maior diversidade de estímulos e progressões bem planejadas podem favorecer a adesão ao longo do tempo, especialmente nessa fase inicial.

Isso não significa que a responsabilidade recaia apenas sobre o método de treinamento.

Significa reconhecer que, diante das múltiplas demandas da vida cotidiana, estratégias que tornem a prática mais acessível, interessante e compatível com a realidade de cada pessoa podem contribuir para sua permanência ao longo do tempo.

Essa observação merece atenção.

O corpo humano não foi feito para responder apenas a uma única demanda motora. Caminhar, correr, levantar cargas, equilibrar-se, mudar de direção, alcançar objetos e adaptar-se a diferentes ambientes fazem parte do repertório natural do movimento humano.

Talvez por isso programas excessivamente repetitivos possam se tornar difíceis de sustentar para algumas pessoas.

As próprias recomendações atuais da Organização Mundial da Saúde reforçam uma visão ampla do exercício físico.

Além das atividades cardiorrespiratórias, são recomendados exercícios de fortalecimento muscular e, em determinadas populações, atividades voltadas ao equilíbrio e ao treinamento multicomponente.

Em outras palavras, a saúde física depende da integração de diferentes capacidades e não apenas do desenvolvimento isolado de uma delas.

Essa visão mais ampla do movimento encontra paralelo também na prática clínica.

A Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) nos lembra que a funcionalidade não pode ser compreendida apenas pela presença ou ausência de uma condição de saúde, mas também pela forma como a pessoa realiza suas atividades, participa da vida cotidiana e interage com o ambiente em que vive.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado ao exercício físico.

Uma prescrição eficiente não depende apenas da escolha do método de treinamento. Ela exige compreender objetivos, capacidades, limitações, preferências, histórico de lesões, rotina e contexto de vida de cada indivíduo.

É nesse sentido que a avaliação funcional assume papel fundamental: não apenas para identificar restrições, mas também para reconhecer potencialidades, orientar metas realistas e construir estratégias compatíveis com as necessidades de cada pessoa.

A qualidade de um programa de exercícios não depende apenas do método utilizado, mas também da capacidade do profissional em adaptá-lo à realidade de quem está à sua frente.

Outro aspecto amplamente discutido atualmente é que o exercício não deve ser visto apenas como uma técnica de treinamento.

Sob a perspectiva do modelo biopsicossocial, ele também constitui um comportamento de saúde.

Isso significa que sua manutenção depende não apenas de adaptações fisiológicas, mas também da percepção de competência, do prazer na prática, do apoio social, da autonomia e da possibilidade real de incorporá-lo à rotina.

Talvez seja justamente aí que esteja um dos maiores desafios da promoção da saúde.

Não basta prescrever um exercício eficaz do ponto de vista fisiológico. É necessário construir uma prática que seja possível, significativa e sustentável.

Mais do que cumprir uma prescrição, o objetivo é que a pessoa consiga incorporar o movimento à vida cotidiana, preservando sua autonomia, participação social e qualidade de vida.

Também é importante reconhecer que a vida não é linear, mas acontece em ciclos e fases.

Haverá períodos de maior disponibilidade e outros de maior sobrecarga. Fases em que será possível treinar mais, e outras em que será necessário adaptar expectativas, objetivos e rotinas.

A constância não significa repetir exatamente o mesmo comportamento todos os dias, mas manter, ao longo do tempo, um vínculo possível com o movimento, mesmo que sua forma precise mudar.

Os benefícios do exercício físico não surgem de sessões isoladas ou de programas perfeitos.

Eles nascem daquilo que conseguimos repetir ao longo dos meses e dos anos, com metas atingíveis, progressivas e bem orientadas.

Muitas vezes, o melhor exercício não é o mais intenso, o mais complexo ou o mais moderno.

É aquele que consegue encontrar um lugar duradouro dentro da vida de uma pessoa.